[Resenha] Reencontro - Leila Krüger | Minha Vida Literária
11

maio
2012

[Resenha] Reencontro – Leila Krüger

Título: Reencontro
Autor: Leila Krüger
Editora: Novo Século
Número de Páginas: 496
Ano de Publicação: 2012
Skoob: Adicione
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“Está bem no fundo. Não se pode alcançar… aos poucos, vai roubando o ar.” Ana Luiza vai perdendo seu fôlego: o fim de (mais) um grande amor, um pai distante, uma mãe fútil, uma amizade complexa e “pessoas que sempre vão embora”. Com suas músicas de rock, seus livros e seus cigarros, Ana Luiza vê sua vida desmoronar. “O amor é uma ferida”, ela sentencia. Mas a “garota de olhar longínquo” tem um encontro inesperado com um alguém aparentemente muito diferente dela: os “olhos imensos”, que tudo veem… Presa em seu próprio mundo e rendida ao álcool e às drogas, Ana Luiza tenta fugir. Principalmente do temido amor, que tanto a feriu… Como encontrar, ou reencontrar o próprio destino? Até onde o amor pode ir, até quando pode esperar? O que há além das baladas de rock e dos poemas românticos? Poderá o amor salvar alguém de sua própria escuridão? Às vezes, é necessário perder quase tudo para reencontrar… e finalmente poder amar.

Com minha mania de não ler as sinopses dos livros, comecei a leitura de Reecontro na escuridão total. Tudo que eu sabia era se tratar de um romance e só. Assim, imaginava que seria uma história em que duas pessoas se reencontrariam, após já terem tido algum romance. Não poderia estar mais enganada. Acima de tudo, trata-se de um reencontro de si próprio.
Acho que Ana Luiza foi uma das personagens mais tristes que já me deparei em uma leitura. Não conseguia pensar nela de outra maneira enquanto conhecia sua história. Foi difícil encarar, para mim, o mundo na visão de uma pessoa que não acredita no amor, que não tem fé em nada, que não enxerga uma solução otimista para nada. Digo que foi difícil porque Ana é o contrário de tudo aquilo que acredito, então me dava agonia o modo de como ela não enxergava essas coisas e a maneira auto-destrutiva com que lidava com tudo.
Reencontro, apesar de ser narrado em terceira pessoa, conta todo o enredo através de uma visão quase que interna de Ana. Havia momentos em que eu me esquecia completamente que a narrativa não era em primeira pessoa, de tanto que ela se assemelha à própria protagonista. As frases, em sua maioria curtas, exprimem o processo de pensamento de Ana Luiza: rápido, desconexo, confuso. A autora, também, utilizou-se da repetição de alguns trechos para criar alguns efeitos: a rotina de Ana e seus hábitos recorrentes, seus déja-vus; ou uma maneira de a jovem tentar se convencer de algo, como, por exemplo, o fato de seu pai não ter a importância que realmente tem em sua vida.
Ainda, foi notável a influência de Clarice Lispector durante a escrita de Leila Kruger, visto o caráter introspectivo da obra. Aliás, a autora modernista é citada em diversos momentos da história, tanto por ser uma das inspirações de Ana Luiza como por meio de trechos de suas obras ao início de cada capítulo.
Sobre as citações, elas estão em peso: de autores e obras literárias a músicas e bandas, sendo Metallica e Gun’s N’Roses as campeãs desse último quesito. Até minha queridinha, Forever, do Kiss, foi citada e isso não poderia ter me deixado mais feliz. Retificando: a combinação de citação de Enter Sandman e Forever não poderia ter me deixado mais feliz.
Por se passar no Rio Grande do Sul, os diálogos são tipicamente sulistas, repletos de expressões gaúchas, tchê. Por mais diferentes que soem para mim, que sou paulista, ainda assim não são forçados. Conseguia imaginar até a entonação das personagens devido à maneira de como as falas foram reproduzidas. Diria que, para os moradores de Porto Alegre, a leitura será uma delícia em termos de cenários: são vários os locais da cidade explorados, inclusive de cidades próximas, como Gramado e Canela. Até mesmo para mim, que fui apenas uma vez para essas cidades, foi uma experiência agradável a de ler sobre um local conhecido.
O livro também traz consigo uma importante questão religiosa, explorada por diferentes maneiras ao longo do enredo. Ana é completamente cética por não conseguir compreender como Deus, sinônimo de amor e bondade, pode existir em um mundo com tantas coisas ruins acontecendo, principalmente em seu próprio mundo. Ela não tem esperança nenhuma consigo. Já Rafa, Nana e Tia Lali compõe o núcleo que têm a fé acima de tudo, além de serem retratados como pessoas que seguem o que acreditam. Ainda, Tia Lali é, também, uma pessoa religiosa, ainda que os outros dois não o sejam tanto. Por fim, a mãe de Ana traduz o mais interessante dos quadros, em minha opinião, por consistir em um paradoxo e, consequentemente, em uma reflexão: é uma pessoa extremamente religiosa, mas amarga, rancorosa e fútil, acabando por não por em prática o que tanto é pregado em sua religião.
Como pontos negativos, diria que estão os próprios recursos da narrativa. Ela pode vir a ser um pouco confusa exatamente por ser composta por frases curtas, porque parecem desconexas em alguns momentos, por mais que isso seja proposital, para representar os pensamentos de Ana (acredito eu). Também, até que eu entendesse o propósito das repetições, fiquei achando se tratar de um erro de revisão, o que não é o caso.
Outro fator é que a história realmente engrena apenas após a metade do livro. Até lá, o propósito da história é ser introduzida e, portanto, que conheçamos as personagens, compreendamos Ana e seu mundo e, principalmente, a maneira que ela o encara. Diria, inclusive, que a história não começa na primeira página, no primeiro dia citado. O momento em que Ana vive, a pessoa que ela é, quando a história se inicia, é uma consequência de tudo que ela já viveu e passou até aquele momento, então é preciso, também, ter acesso ao seu passado para compreender o seu presente. Dessa maneira, embora a primeira metade pareça ser mais lenta, ela é essencial no todo.
Por fim, devo dizer que acabei por me surpreender com o final da história, mais especificamente sobre a questão romântica em si. Não esperava o desfecho e me emocionei com ele, por mais uma vez me deparar com a mágica do amor e do destino. Ler o capítulo final apenas aumentou o meu encantamento pelo romance em si, porém, se eu der mais detalhes, acabarei por dar um grande spoiler, o que não pretendo fazer.
Gostei do estilo de escrita da autora, poético e introspectivo, além de ter gostado da história. É o tipo de enredo que traz consigo força e esperança, principalmente ao se ler o último capítulo. Ainda, achei muito válido como experiência para mim, já que foi mais uma oportunidade de compreender o mundo pela visão de alguém diferente de mim. É muito fácil julgarmos o que não conhecemos ou resolvermos situações por não estarmos diretamente envolvidos nela. Contudo, histórias assim nos fazem lembrar de que o mundo é formado por diferentes pessoas, com diferentes modos de agir e pensar, e que cada atitude é limitada segundo aquilo que se acredita e, principalmente, por aquilo que se vê.




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23 Respostas para "[Resenha] Reencontro – Leila Krüger"

This Gomez - 11, maio 2012 às (23:21)

Ai, Mi, que resenha maravilhosa *.*
Amo a facilidade que tens com as palavras, é algo tão natural ^^

Eu já conhecia o livro, acredito que aqui mesmo do teu blog, e sempre achei a capa linda – ao contrário de ti, curto ler as sinopses, quase sempre o faço. Mas o que mais me atrai aos livros é a quantidade de opiniões positivas sobre ele. Gostei de tudo na obra, e acho que o ponto negativo das frases curtas não me incomodaria na leitura ^^

BEijão flor =**

This

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Ana Ferreira - 12, maio 2012 às (01:27)

Mi, sempre comento em resenhas sobre livros com cargas dramáticas mais pesadas que passo a ter admiração pela escrita de um autor quando ele me perturba. Não exatamente de uma maneira ruim, causando desconforto, tristeza ou qualquer outra sensação semelhante, mas simplesmente fazendo-se inesquecível em minha mente e, de alguma forma, sinto a presença de algumas dessas características em “Reencontro”.
Deve ser um livro bem forte, mas com uma lição valiosa. E ainda que eu não goste do estilo introspectivo de Clarice Lispector discursando sobre como uma barata pode mudar sua vida, ainda acho que ele combina mais com o drama deste livro em questão. rs
Sua resenha ficou ótima 🙂

Beijão!

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Michelle' - 12, maio 2012 às (13:59)

Oi Mi!
Adoro suas resenhas, eu já disse isso né? haha
Parece ser uma leitura bem profunda e triste, que te faz refletir e mexe um pouco com a nossa perspectiva das coisas.
Gostei do fato das citações de bandas que eu pessoalmente adoro, ponto positivo.
Eu não sei se leria, pelo menos o final é feliz (não é?), mas parece ser realmente um bom livro.
Beijinhos
Michelle, Minha Bagunça

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Mariana Ribeiro - 12, maio 2012 às (14:05)

Olá, Mi!!
Adorei a sua resenha!!
Ainda não tive a oportunidade de ler, mas acho que também me emocionaria pelo drama vivido pela personagem. Me parece que se trata de uma leitura densa e com elevada carga emocional, realmente lembrará a narrativa de Clarice e que inspirou a autora ao escrevê-lo.
Bom findi.
Bjos.

Mariana Ribeiro
Confissões Literárias.

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Milena Liebe - 12, maio 2012 às (16:25)

Mi, Você escreve bem demais!
Gostaria de ter essa habilidade (inveja boa, tá!)
O livro me parece bom, pois eu convivo com pessoas como a Ana. É de família, está nos genes. EU não posso ler um livro assim, me provocaria danos. Por isso, dou preferencia a fantasia e aventuras.
Abraços.
Denir.

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Marcelo Lima - 12, maio 2012 às (16:56)

Mi que resenha! Acho que o livro que li em terceira pessoa que chega nesse patamar é A ultima musica e se a narrativa tiver a mesma perspectiva quero ler esse livro !

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Lucas Martins - 13, maio 2012 às (00:47)

Os nacionais têm me decepcionado bastante, este ano. “Reencontro” tem tudo que pode me chamar a atenção: um tema ótimo e uma história que se passa onde eu moro, além das várias referências musicais, como você mesma citou.
Mas não senti vontade de conhecer a história, entende, Mi? Sei que poderia amar, mas ultimamente não ando sentindo a mínima vontade de ler os nacionais (com exceções, claro)
E outra, não gosto de livros com essa questão religiosa. Não tenho preconceito, nem nada, sou agnóstico. Só que sinto que alguns autores querem persuadir as pessoas e isso que me deixa irritado. Então nem procuro muito livros com um quê de religiosidade.
Enfim, quem sabe um dia eu leio? rsrs
Beijão, Mi!

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Lendo e Comentando - 13, maio 2012 às (02:12)

Oi, Aione!

Ah, eu adoro pegar um livro pra ler sabendo pouquíssimo sobre ele. É ótima aquela sensação de total surpresa a cada página. Acredito que talvez eu pudesse me identificar bastante com a Ana, rs. Infelizmente. Pelo menos de uns tempos pra cá tenho me sentido dessa forma que você descreveu no segundo parágrafo. Gosto bastante de livros que tem citações de outros livros e citações musicais. Isso sempre é um ponto positivo pra mim. Acho que o me afasta um pouco desse livro é o fato de abordar religião… Eu tento evitar livros que abordam esse tema, porque geralmente o tema nos é apresentado de uma forma que não concordo… Não sei se é o caso desse livro, afinal não o li ainda, mas na maioria dos livros que leio que abordam religião, eles colocam as pessoas que não tem religião ou que não acreditam em deus, como pessoas más, tristes, rancorosas… “corrompidas”. Eu, particularmente, acho isso um grande preconceito.

Adorei a resenha, Aione. Muito bem escrita. 🙂 Que bom que apesar dos pontos negativos citados o livro te agradou. Talvez eu o leia futuramente, mas não é uma prioridade.

Beijos,
Amanda — Lendo & Comentando
^_^

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Eduarda Menezes - 13, maio 2012 às (02:25)

Mi, como sempre a sua resenha está super completa, adorei!
O livro em si, não é bem o tipo de leitura que venho procurando no momento, mas ainda assim talvez o lesse em outra ocasião. Parece conter algumas lições valiosas, e levar a uma reflexão, o que é sempre bom. Às vezes acaba sendo bem chato quando não simpatizamos com a protagonista de um livro, o que parece ser o caso desse, mas acho que devemos levar exatamente como você fez, afinal, não deixa de ser interessante enxergar as coisas através de um ponto de vista oposto ao nosso.
Beijão!

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✿Vanessa✿ - 13, maio 2012 às (13:08)

Oi Mi*
Gostei muito de sua resenha!
Recebi este livro e pretendo logo lê-lo!!

Bjinhs
http://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

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Vanessa - 13, maio 2012 às (14:00)

Olá 😀
Ótima resenha. Eu ainda não li esse livro, mas espero poder ler logo logo *-* Eu to fazendo o book tour lá no blog e ainda não li porque passei pra frente senão ia ficar comigo pra sempre o livro, meu ritmo de leitura ta muuuuuito lento, credo UAHSAUHSU Enfim 😀

Beijos, Vanessa.
This Adorable Thing

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Luara Cardoso - 14, maio 2012 às (00:04)

Esse é um dos livros que eu to morrendo de curiosidade para ler. De verdade. Primeiro, na primeira vez em que vi a capa, ela me chamou atenção. Bem diferente, sabe? E chamativa.
Depois, a partir de algumas resenhas, me apaixonei pelo enredo. Parece ser bem legal. *-*

Um beijo,
Luara – Estante Vertical

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Vanessa - 14, maio 2012 às (11:30)

Ahhhh, a história se passa aqui no RS???
Eu não sabia deste detalhe guria, rsrs. Agora mesmo que eu quero, quer dizer, preciso deste livro urgentemente, quero muito ver como ficou esta coisa de a Leila colocar nossas expressões nos diálogos, muito legal!!!

Vanessa – Balaio

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Érica Patricia Lopes - 14, maio 2012 às (11:50)

Oi Mi!
Já vi outras resenhas desse livro, mas a sua foi “The best!” sutil e tocante! Parabéns! Desejo ler o livro em breve e espero me emocionar também! É lindo ver os autores nacionais mandando super bem né?
Sem falar que a capa é linda!

Beijokas

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Sofia - 14, maio 2012 às (12:30)

Mi, resenha show! Amei… Existem certos livros que nos marcam mesmo, né? Aborda temas pesados…
Beijos

Responder

Raquel Castro - 14, maio 2012 às (13:00)

Oi, Aione!

Primeiramente, adorei sua resenha! E não é à toa que adoro o seu blog. Por isso queria saber se você não gostaria de trocar links comigo, porque agora eu estou com um novo blog:

http://cheirode-livro.blogspot.com.br/

Já adicionei o seu por lá e aguardo um retorno!

Beijão!

Responder

Julia G - 14, maio 2012 às (13:15)

Mi, a primeira impressão que tenho ao ler as resenhas desse livro é que ele é carregado, com sentimentos pesados e que muitas vezes poderiam nos levar a depressão, caso fosse conosco. Mesmo assim, tenho curiosidade de conhecer. Acho que mudanças podem acontecer em nossas vidas e tornar tudo ainda mais especial. Espero poder ler logo.

Beijos

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PamFardin - 14, maio 2012 às (17:16)

Aione, como você consegue não ler as sinopses dos livros? Eu simplesmente não consigo, é muito mais forte do que eu! kkkkkk’
A capa é bem linda, me interessei para ler esse livro 🙂

Beijinhos
aritmeticadasletras.blogspot.com

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Andressa Tomaz - 14, maio 2012 às (17:24)

Oi Mi!
Primeiro, também detesto ler sinopses. Um dia desses fui ler sem querer a primeira linha de um livro e já fiquei sabendo o que acontecia lá para o meio. Só na primeira frase, imagina o resto?
Enfim, acho que estranharia a protagonista também. Sou uma pessoa que acredita em amor, em felicidade e sou na maioria das vezes, otimista. Imagino como foi estranho para você ver isso também.
Parece uma leitura bem reflexiva, e também não imaginava o tema antes de ler na resenha.

Beijos!

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A Leitora - 15, maio 2012 às (12:12)

Não conhecia este livro, e ainda bem que passei aqui.
Reencontro faz juz ao nome pelo que você disse em sua resenha. O enredo da história te prende do começo ao fim e quando termina o livro você sente aquele gostinho de quero mais e felicidade por ter lido um livro tão bom. Espero ter a oportunidade de ler uma obra assim. Amo suas resenhas, sempre bem escritas e apaixonantes. Quando for gente grande espero fazer resenhas assim.
Beijokas enormes
Brih
Meu Livro Rosa Pink

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Sora Seishin - 15, maio 2012 às (13:26)

Oi Aione!
Nossa, esse livro parece ser muito bom!
Sonho em conhecer Gramado, mas acho que eu também vou estranhar as gírias (cada canto do país fala de um jeito, né?)
Ótima resenha, como sempre 🙂

Beijos,
Sora – Meu Jardim de Livros

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Jessica Asato - 16, maio 2012 às (17:10)

Muito legal sua resenha Aione, parabéns! Encontrei o livro da Leila aqui em Campo Grande (MS) e fiquei super contente!!
*-*
Não sabia que a personagem era tão negativa assim… eu não sou tão, mas ainda assim acho que me identificaria com a personagem em um momento e outro.
Apesar de alguns pontos negativos, é bom quando o livro nos surpreende totalmente né? Eu adoro!

Parabéns pela resenha!
Beijos!

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Planet Pink - 17, maio 2012 às (20:34)

Oi Mi!!
Eu adoro a capa desse livro, acho lindíssima e conhecer a história me fez ter mais vontade ainda de lê-lo; toda essa característica intro da personagem, me chama muito atenção.

Adorei a resenha, sincera como sempre.

Beijão!

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