[Livros Na Telona] Divã - Martha Medeiros | Minha Vida Literária
05

set
2012

[Livros Na Telona] Divã – Martha Medeiros

Livros Na Telona é uma coluna na qual analiso filmes que foram baseados em livros!

 

Sobre o Livro

DIVA_1304702832BTítulo: Divã
Autor: Martha Medeiros
Editora: Objetiva
Número de Páginas: 154
Ano de Publicação: 2009
Skoob: Adicione
Compare e Compre: Buscapé

Quando comecei a leitura de Divãainda que soubesse do trabalho de Martha Medeiros como cronista, acreditei estar diante de um chick-lit. Uma mulher que, através de consultas com seu psicólogo, revela, a cada capítulo, um pouco mais de si mesma, criando na mente do leitor as cenas de sua vida.

Divã não deixa de ser um chick-lit, se considerarmos a definição de “leitura feminina”. Tem humor, fala das descobertas femininas, trata de um universo feminino. Divã é um monólogo. Os diálogos entre Mercedes e Lopes, seu psicólogo, são indiretos. As perguntas feitas a ela não são, em sua maioria, descritas, temos apenas a resposta da protagonista e percebemos ser uma resposta pelo uso do vocativo “Lopes”. Em outros momentos, Martha Medeiros faz com que Mercedes repita as perguntas a ela feitas, e assim somos capazes de perceber o diálogo travado. Não há uso de um travessão sequer durante a narrativa e os capítulos, apesar de separados, não apresentam números ou títulos.
A capacidade de envolvimento com a obra é incrível. Martha Medeiros traga o leitor para dentro da leitura e para dentro dos questionamentos de Mercedes de maneira singular. Ela se aprofunda na personagem de maneira leve, bem humorada e, com a exposição de seus anseios, desbravada a alma feminina.
O livro é repleto de quotes incríveis, aquele que você se vê anotando mentalmente para publicar no Facebook ou simplesmente para manter com você, em sua memória ou em um caderno de frases, caso você tenha algum. Perdi a noção de quantos diferentes momentos me identifiquei, de quantos sentimentos compartilhei com Mercedes, enquanto outros eram completamente desconhecidos para mim. Fazer essa leitura e conhecer Mercedes foi, também, refletir sobre a vida e sobre mim mesma.
Esse foi o meu primeiro contato com algum trabalho de Martha Medeiros e espero não ser o último. Simplesmente amei a leitura e devorei o livro em cerca de duas horas, impressionada, a cada página, com a capacidade da autora de envolver o leitor, de entreter, divertir, de fazer refletir. Divã não trata simplesmente de uma alma feminina, trata da vida e Martha foi extremamente feliz em abordar suas mais diversas facetas.
Talvez seja meu gosto por temas mais psicológicos, analistas, mas o livro entrou, sem pestanejar, para minha lista de favoritos e pensei nas mais diversas mulheres enquanto o lia, até naquelas que não mais fazem parte de minha vida, como se cada trecho específico dissesse respeito a alguma delas e, ao mesmo tempo, a todas nós.
Mercedes, por todo o livro, percorre uma busca em si mesma, descobrindo novas facetas, revelando outras já conhecidas por ela, entendendo fatos da vida e procurando respostas para outros. Lopes é apenas o que facilita a ela percorrer essa jornada, ele é um mero instrumento que, ao ouvir o que ela tem a dizer, permite que ela mesma tire suas próprias conclusões.
Indico a todos que buscam por uma leitura leve, rápida e divertida, mas que não superficial. Se você é mulher, certamente se identificará em algum momento. Se você é homem, certamente conhecerá um pouco mais da alma feminina.

“Sou tantas que mal consigo me distinguir. Sou estrategista, batalhadora, porém traída pela comoção. Num piscar de olhos fico terna, delicada. Acho que sou promíscua, doutor Lopes. São muitas mulheres numa só, e alguns homens também. Prepare-se para uma terapia em grupo.”

página 11
Sobre o Filme

Confesso que tinha receio em ver o filme. Lembro-me de que, quando vi o trailer há anos, pensei ser uma comédia, com cenas hilárias – o que não deixa de acontecer. Porém, ao ler o livro, percebi não só a profundidade da obra, mas também o fato de seu humor não ser um estilo “comédia”, ele é mais refinado, mais irônico e senti medo de que o filme acabasse por banalizar o trabalho de Martha Medeiros.

Impossível ter a mesma profundidade do livro. Nem todas as reflexões de Mercedes puderam ser reproduzidas, ao passo que a ausência de algumas delas deu lugar para a extensão de cenas que, no livro, foram apenas citadas. Contudo, muitas das falas da protagonista são reproduzidas com exatidão por Lília Cabral, que protagoniza Mercedes. Me vi, em vários momentos, completando mentalmente as falas, por já tê-las conhecido pela leitura. Uma das estratégias usadas foi a transposição de parte das falas do consultório para as mais diversas cenas. Por exemplo: há coisas, no livro, ditas de Mercedes para Lopes. No filme, os mesmos dizeres acontecem em outra situação para outra personagem.

Ainda, achei ótimo o fato de a estrutura do livro ter sido mantida. As cenas são apresentadas segundo as sessões com Lopes, que, como no livro, não tem fala alguma. Aliás, o psicanalista sempre aparece de costas, como uma sombra, demonstrando o seu papel de ouvinte, de canal para as falas de Mercedes.

Apesar de ter rido em muitas cenas de humor, achei que elas acabaram por descaracterizar a imagem que construí da personagem. Nessas cenas, com o óbvio intuito de descontrair, fiquei com a impressão de Mercedes ser uma quase cinquentona querendo tirar o atraso das loucuras não cometidas em sua vida, achei que a imagem passada foi, como eu temia, um pouco banalizada. Contudo, nas cenas mais sérias, achei que Lília Cabral esteve impecável, transmitindo muito bem todos os questionamentos da Mercedes do livro e conseguindo me levar às lágrimas ao final do filme.
Alexandra Richter merece destaque. Simplesmente adorei a atuação dela como Mônica, melhor amiga de Mercedes. Só senti falta da menção de uma das falas de Mercedes que mais me marcou no livro e que não foi citada no filme, porém, diz tudo sobre a amizade das duas:

 

“Não sou como Mônica, então sou outra pessoa, existo. Não gosto das coisas que Mônica gosta, então eu tenho preferências pessoais, existo. Não sinto as coisas da mesma forma que Mônica, então eu sinto as coisas de forma particular, existo. As pessoas não gostam de solidão porque não têm com o que se defrontar, perdem a referência do que não são, ficam apenas com aquilo que são e não desvendam. Agora entendo que eu reverenciava a solidão porque acreditava que me conhecia o suficiente. Sozinha a gente apenas se preserva. A nossa existência, pra valer, só se confirma através dos outros”.

página 165
Como praticamente todas as adaptações, há leves diferenças entre livro e filme. Alguns pontos da história são mais curtos em um do que no outro, há momentos que não apareceram no filme e existem no livro, além daquelas cenas incluídas na adaptação e que eram desconhecidas ao leitor. De qualquer forma, acredito que o filme manteve o principal, mesmo que com algumas mudanças: a essência do livro.
Recomendo o filme para um bom entretenimento. Se for assistir com a família, esteja com aqueles que você sabe que não se constrangerão ou com quem você não se sentirá constrangido em alguns momentos, cenas e assuntos como sexo estão presentes, mesmo que em doses homeopáticas. Porém, mais ainda do que o filme, recomendo a leitura. É igualmente prazerosa e muito mais ampla, em termos reflexivos, do que sua adaptação.




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15 Respostas para "[Livros Na Telona] Divã – Martha Medeiros"

Alinne - 05, setembro 2012 às (18:46)

Oi Mi.
Amo filmes nacionais e sempre que posso estou assistindo algum. Esse parece ser bem interessante, ainda mais porque gosto do trabalho desta atriz. A respeito do livro,também irei dar uma chance.
Beijos.

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Janine Stecanella - 05, setembro 2012 às (19:04)

Oi Aione! Tudo bem?
Já li alguns livros da Martha mas não tenho certeza se Divã foi um deles. Ao longo da resenha lembrei de algumas passagens, mas posso estar confundindo com o filme, que é muito legal! Agora na versão pocket, vale a pena comprar e ler (ou reler). Gostei muito da dica e do post!

Beijo!
– Nine
“Estante da Nine”

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Lindsay - 05, setembro 2012 às (22:12)

Oi Mi,
Ainda não li Divã, só vi o filme e gostei muito!
Mas por ser da Martha já tenho certeza de que é sucesso! Adorei o quote selecionado: “Prepare-se para uma terapia em grupo.” hahahaha Muito Bom! Acredito que é bem assim mesmo, só as mulheres conseguem ser “várias” em “uma só”.
Se fiquei fascinada pela Mercedes do filme, a do livro então, deve ser o máximo!
Parabéns pela resenha!
E VIVA A CULTURA NACIONAL!
Beijos

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Kivia Nascentes - 05, setembro 2012 às (23:22)

Eu vi esse filme assim que estreou e adorei, a Lilian Cabral pra mim é uma das minhas atrizes deuses.

Muito depois que eu fiquei sabendo do livro, achei avulsamente numa livraria e li um capítulo e nele jã adorei, deu pra ter uma pouco da ideia de que a adaptação ficou bem feita. Tá na lista pra ler mas sempre acabo deixando pra depois.

beijo diva maravilhosa!

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Danzinha - 06, setembro 2012 às (01:47)

Oiie Mi,

Eu não sabia que o filme tinha sido uma adaptação, até bem pouco tempo atrás. Confesso que quando vi o trailer não me chamou muito a atenção, mas, a sua resenha me fez repensar e eu posso, mesmo, dar uma chance ao livro e ver se gosto.

Beijos

Amigas entre Livros

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Sonia - 06, setembro 2012 às (01:50)

Vi o filme na tv, gostei muito. Agora depois da resenha do livro estou louca para lê-lo para acrescentar mais detalhes ao que assisti.

soniacarmo
retalhosnomundo.blogspot.com.br

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Vanessa - 06, setembro 2012 às (02:41)

E viva o Cinema/Literatura nacional. Adoro este filme assim como adoro Martha Medeiros apesar de já ter lido um monte de livros dela, menos Divã!!!! Pode uma coisa destas??? Rsrs.

Vanessa – Blog do Balaio

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Julia G - 06, setembro 2012 às (02:45)

Oi Mi, eu juro que não sabia, há um tempo atrás, que Divã era livro. E, para ser sincera, não saberia se gostaria de ler exatamente por causa desse monólogo, todas as coisas (livros, peças de teatro, etc) assim me decepcionaram um pouco. Mas fiquei mais animada agora ao ler sua resenha, gosto de histórias com profundidade. O filme também parece bom, ainda que a personagem não seja fielmente passada.

Beijos

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Érica Lopes - 06, setembro 2012 às (12:03)

Oi, flor!
Ah tenho vontade de ler o livro, adorei o quote haha o filme deve ser ótimo tb. Gostaria de ler algo da Martha, conhecer sua escrita e narrativa.

Beijos Mi!

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Lili - 06, setembro 2012 às (19:20)

Que invejinha da leitura. Eu quero muito ler Divã, porque adoro a Martha. E fico felicíssima que a nossa gaúcha tenha te agradado tanto.

Beijos,

liliescreve.blogspot.com

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Kéziah Raiol - 06, setembro 2012 às (23:18)

Eu ouvi falar desse livro, mas nunca tive vontade, confesso que você me atiçou a saber mais.
Adorei a escolha do quote, parabéns!

Beijocas.
paixaoliteraria.com

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Marcelo Lima - 06, setembro 2012 às (23:38)

nunca vi o filme e acho que não verei , o livro quem sabe um dia , assisti a série e adorava era bem legal , mas ai a atriz aceitou a griselda e acabou ! que odio !

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✿Nessa✿ - 07, setembro 2012 às (17:52)

Oi Mi*
Como vc já sabe eu adoro a Martha Medeiros, e eu primeiro li o livro e depois assisti ao filme, e tbm achei o livro profundo e dei falta de algumas coisas no filme, mas adorei demais o filme.
Já li quase todos os livros da Martha e são muito bons, eu recomendo!

Bjinhs*
http://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

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Ana Ferreira - 09, setembro 2012 às (03:00)

Mi, eu assisti a “Divã” e, ignorância de minha parte, nem sequer sabia da existência do livro. Se havia um livro, para mim era uma adaptação do filme, ao contrário do que realmente acontece, felizmente.
E achei a atuação da Lília Cabral ótima durante todo o longa. Ela conseguiu ser séria e divertidíssima ao mesmo tempo mas, realmente, passou-me essa imagem de cinquentona querendo curtir, como você citou em sua resenha, o que talvez não tenha sido a intenção de Martha Medeiros.
A respeito da autora, inclusive, adoro as citações dela que vejo espalhadas por aí e sinto que seu texto, na íntegra, deve mesmo valer a pena.
Beijoo!

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Lucas Martins - 10, setembro 2012 às (03:50)

Mi, já vi o livro diversas vezes em livrarias e sebos e agora bateu arrependimento de ainda não ter comprado. A última vez que vi ainda parei e pensei se valia a pena comprar, afinal, estava custando apenas 10 reais. Mas, infelizmente, acabei não levando.
O filme, eu já vi partes e achei muito bom, com ótimas atuações, mas sei que se for procurar profundidade tenho que fazer a leitura do livro. Então tenho que comprar logo!
Beijão!

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