Delírios após "Delírio" | Minha Vida Literária
18

mar
2013

Delírios após “Delírio”

Muitas vezes, um livro mexe comigo a ponto de me deixar pensando nele por bastante tempo. Invariavelmente, quando penso demais em algo, sinto a vontade de escrever sobre isso. Delírio me causou essa vontade e, dessa vez, resolvi dividir com vocês o resultado de minhas reflexões.
Portanto, o post de hoje será um pouco diferente do que costumo fazer por aqui.
Eu espero que vocês gostem!
Pense numa sociedade sem amor.
Seria maravilhoso estar livre do sofrimento que o sentimento proporciona, não seria? Se o amor não existisse, Romeu e Julieta teriam tido mais vida para viver em suas histórias, Bentinho não teria ganhado o apelido de “Casmurro” após o descontentamento pela possível traição de Capitu, e Heathcliff não teria enlouquecido em seu Wuthering Heights.
Baseado nessa lógica, o amor surge como uma doença em “Delírio”.

É impossível negar que, por um lado, ela se faz interessante e, arrisco, tem seu sentido. O amor é um sentimento grandioso e seu poder está em agregar diversos outros com ele, então é natural que, quando não consumado ou quebrado por alguma desilusão, acarrete em mágoa, rancor e outros sofrimentos.
Por outro, não consigo não me sentir aterrorizada pela ideia. Minhas músicas favoritas, os filmes e livros que mais me emocionaram são aqueles sobre o amor em alguma ou em todas suas facetas. Se o amor não existisse, quantas obras não teriam sido desperdiçadas? Como Shakespeare teria sido imortalizado? De onde Jane Austen teria encontrado inspiração, já que foi justamente o fato de não ter tido o seu final feliz que a levou a dar um para todas as suas protagonistas?
Mais ainda. Como uma sociedade conseguiria ser mantida sem amor, se é justamente a compaixão pelo próximo que minimiza e torna aceitáveis possíveis diferenças, ainda que não as elimine?
Seria, talvez, o egoísmo a sua base. Pessoas, ao se importarem em demasia com a opinião do próximo, poderiam mediar suas ações tendo em vista sua própria aceitação e seu próprio bem estar. Algo semelhante com o que também ocorre na obra de Lauren Oliver.
Novamente, não posso evitar o repúdio a essa ideia. Nossa sociedade atual já é problemática com a existência do amor, mesmo que nem sempre lembrado, e evito pensar na situação hipotética na qual ele seria eliminado por completo.  Dizem que o maior amor de todos é o sentido de uma mãe para o filho. Quão horrível para a mãe e para o bebê não seria serem privados de uma benção como o amor?
Uma ideia semelhante a de “Delírio” se encontra em um dos meus filmes favoritos, “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, protagonizado por Jim Carrey e Kate Winslet. Aqui, não há uma eliminação do amor na sociedade, mas sim um processo no qual as memórias específicas de alguém submetido a ele podem ser excluídas de sua mente. Assim, uma pessoa pode, por exemplo, apagar por completo de sua memória alguém que a tenha feito sofrer, acordando após o processo como se nada, inclusive o processo em si, tivesse acontecido. O amor e o sofrimento são eliminados como uma consequência da memória esvaída.
Uma ideia também interessante e tentadora em momentos dolorosos. Contudo, se são nossas memórias que fazem de nós quem somos, perdê-las não seria perder uma parte de nós? Ao eliminar a dor, perde-se, também, o aprendizado advindo dela.
Independentemente de todos os sofrimentos possíveis trazidos pelo amor, não consigo não enxergá-lo como uma dádiva que faz valer a pena toda e qualquer dor, simplesmente porque seus benefícios são muito mais grandiosos do que o restante. Sou uma romântica incorrigível que espera jamais ser corrigida, se isso significar que sejam tirados de mim os meus sonhos, a minha esperança, o meu amor. Emprego o amor naquilo que faço, naquilo que vejo e naquilo que sinto. Se fosse tirado de mim o amor, tirariam também uma parte de quem sou, e perder a mim mesma seria, talvez, o pior que poderia me acontecer.




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27 Respostas para "Delírios após “Delírio”"

Lygia Netto - 18, março 2013 às (15:57)

ontudo, se são nossas memórias que fazem de nós quem somos, perdê-las não seria perder uma parte de nós? Ao eliminar a dor, perde-se, também, o aprendizado advindo com ela.

Exatamente, Mi. Somos a soma das nossas experiências, e querendo ou não, td contribui para nossa formação de caráter! =)

Excelente reflexão!

Beijos!

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Anonymous - 18, março 2013 às (16:16)

seria exatamente como máquinas , seu texto está divino Mi <3 – Marcelo Lima

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Nessa - 18, março 2013 às (16:29)

Lindo texto! Parabéns!

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Fabiana Almeida - 18, março 2013 às (16:32)

Ótima reflexão Aione!!!

Delírio provoca esse tipo de pensamento em nós, e se…??? Como seria tudo sem o AMOR,sem emoção?

Sim, nossas “marcas” fazem parte de quem somos!!!

Bjs, boa semana!!!

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cristiane - 18, março 2013 às (16:44)

Adorei esse post! E nunca tinha pensado nesse livro e naquele filme, mas colocando juntos eles combinam mesmo. Mas caramba, viver num mundo sem amor? Poderia ser bom, mas seria uma merda! Cruzes :S

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Fabi Liberati - 18, março 2013 às (17:09)

Nossa Mi, lindo o post hoje amei a sua reflexão e espero ler esse livro em breve.

Não consigo imaginar o mundo sem amor! Sou uma romântica incorrigível também *.*
Você é uma fofa. Beijos Mi.

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Lili - 18, março 2013 às (17:17)

Mi, adorei as reflexões. Eu ainda não consegui ver a sua resenha e pela primeira vez senti vontade de ler este livro, acredita?
Fiquei imensamente tocada pelo modo como ele te tocou. Que coisa!

Realmente um mundo sem amor… bom “sem amor eu nada seria”.

Embora eu entenda demais a motivação do filme que tenho e amo re-assistir (Brilho eterno de uma mente sem lembranças), parece que as memórias nos sufocam e embora seja terrível tê-las arrancadas de nós mesmos, temo que todos desejamos isso inúmeras vezes no decorrer da vida.

liliescreve.blogspot.com

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Katrine Bernardo - 18, março 2013 às (17:44)

Uau, adorei seu post, você soube exatamente como colocar sua opinião hihi
Um beijo.
http://livrodagarota.blogspot.com.br/

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Planet Pink - 18, março 2013 às (20:48)

Sabe Mi, eu adoro esse tipo de postagem, onde divagamos sobre algum assunto. Acho que por ter sido um livro que te inspirou pra tantas reflexões, fica melhor mesmo que você faça um post separado da resenha, para falar a vontade. A propósito, você deveria fazer isso mais vezes!!

Também não me imagino sem o amor, apesar do sofrimento que ele possa vir causar em certo momento, sofrimento maior seria, viver sem ele.

Beijos

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Laura Zardo - 18, março 2013 às (22:24)

Este comentário foi removido pelo autor.

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Laura Zardo - 18, março 2013 às (22:25)

Mesmo muitas vezes não sabendo demonstrar meus sentimentos eu sou uma romântica incorrigível e também não quero ser corrigida, acho que toda forma saudável de amor traz coisas boas, acrescenta, faz da gente pessoas melhores e o sofrimento causado pelo amor é uma consequência normal. Como você diz, o que seria das pessoas sem o sofrimento que futuramente se torna um aprendizado?
Adorei o post, acho que você deveria fazer isso mais vezes.

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Aline T.K.M. - 18, março 2013 às (22:55)

Ótimo post! Apesar de não ter lido Delírio, acho o tema bastante intrigante, e vibrei ao ver que você mencionou Brilho Eterno, que também está entre meus filmes preferidos da vida toda! Muito interessante a reflexão que você indicou unindo o livro e o filme.

Bj, Livro Lab

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Kelry Caroline - 18, março 2013 às (23:42)

Adorei o texto, realmente delírio é belíssimo.

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Ana Paula Barreto - 19, março 2013 às (00:01)

Bela reflexão, de verdade. Estou ansiosa para ler o livro e sei que me fará pensar muito nestas coisas também.
Como seria o mundo sem amor? É só imaginar as piores atrocidades que a humanidade já cometeu consigo mesma e com a natureza. Toda a dor causada (Guerras, nazismo, crimes de preconceito, estupro, etc) e só ela. Porque o ser humano sem o amor, não tem como pensar em outra coisa a não ser seu próprio lucro, a realização de seus desejos as custas de qualquer coisa. Sem o amor, não há compaixão, misericórdia, não há possibilidade de abrir mão em prol do outro, não há amizade, nem empatia.
Nem gosto de pensar nisto, mas acho que podemos disseminar o AMOR onde ele não é encontrado hoje em dia.
bjs

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Jonathan Henrique - 19, março 2013 às (00:29)

Parabéns, Aione, pelo maravilhoso texto. Eu penso que se não houvesse amor, a vida não teria graça, tempero. É amando que nos tornamos seres humanos…

Beijos e boa semana!

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Jeferson Cardoso - 19, março 2013 às (13:03)

Oi Aione!
Neruda em uma frase descreveu muito bem do que somos formados. [sorrio]
“Sou onívoro de sentimentos, de seres, de livros, de acontecimentos e lutas. Comeria toda a terra. Beberia todo o mar.” (Neruda)
Parabéns pelo belo texto reflexivo!
http://jefhcardoso.blogspot.com lhe convida e espera para ler e comentar “O Grande Circo Nonsenese – A Incrível Mulher da Boca Torta”. Abraço.

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Mariana FS - 19, março 2013 às (17:49)

Oi Aione!
Gostei muito do post e das suas divagações.
Eu confesso que não sou uma grande romântica, embora seja intensamente apaixonada por muitas coisas. De fato, sem esse sentimento, que graça teria a vida?
Ps.: Faça outros posts assim. “Delire” mais vezes 🙂
Beijos

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Julia G - 19, março 2013 às (19:27)

Nossa, eu adorei esse texto. Eu concordo com cada palavra que você citou, cada vírgula. Porque por mais que essa realidade descrita no livro muito provavelmente nunca vai existir, não tem como não ficar mexida com uma leitura desse tipo (eu ainda não li, mas imagino como seja – aconteceu coisa semelhante quando li Fahrenheit esses dias).
E o amor é o que move tudo, e o que cura, ainda que seja insuficiente. Romântica incorrigível, como você, não consigo ver um mundo em que ele não exista.

Beijos

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Rafael Fernandes - 19, março 2013 às (22:41)

Oi Mih, ah o amor!!! É tão belo que tem tantas definições que no final ninguém o entende. Por isso vemos tantos livros tratar acerca dele, concorda? Mas nunca acham algo que fomente o total significado do amor. Falando de hoje em dia, na Bíblia está escrito muitas coisas bonitas e até concordo, e o fato do amor esfriar também concordo, visto que tantas famílias se autodestruindo é o cúmulo, e ver também que a família é o fruto de um amor. Eh, isso dá muita discussão. Amei o post, me fez refletir muito Mih, parabéns!

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Manu Hitz - 20, março 2013 às (10:32)

Adorei, Aione! Bela reflexão!
Sem amor acho que me sentiria oca. Mesmo que este sentimento traga consigo, amarradinho, a dor. Porque quando a gente ama tb se preocupa, tb dói ver o ser amado sofrer, então acho que são sentimentos intrínsecos.
Quem é mãe sabe bem dessa ligação… quando tive meu filho logo concluí: é um amor que dói!

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Pah - 21, março 2013 às (12:05)

Incrível gêmea…Texto sentimental e racional, concordo com você, a dor é miníma quando comparada com as memórias, e o crescimento que cada uma dessas experiências traz. Imagine perder tudo o que você é, tudo o que gosta e já sentiu? É assim que me sentiria sem amor, vazia, sem alma como a Alexia do livro Alma?… Minha irmã começou a ler esse livro antes de mim, acho que ela termina de lê-lo essa semana, dps é minha vez. Nós temos o hábito gostoso de trocas ideias sobre os livros e nessa última semana ela vem ao meu quarto constantemente me falar sobre esse livro, sobre a sociedade, sobre a protagonista, o moço bonito, e uma tal de cena em que ele fala do sol ou de algo como a cor cinza, rsrs, enquanto ela me falava sobre o livro pensei nas mesmas coisas que você, em como seria minha vida sem o amor, ou pior, como nossa sociedade seria; também temo esse dia, seríamos ainda piores com o próximo do que já somos, e de fato, o egoísmo iria reinar.

Beijokas, e final de semana vejo a resenha em vídeo, se minha internet render ;/ #Triste falta de tempo

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Amanda.. - 24, março 2013 às (03:47)

não li o livro.. mas o filme brilho eterno de uma mente sem lembranças é realmente muito bom..

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Gladys Sena - 24, março 2013 às (22:26)

Concordo plenamente com: “Ao eliminar a dor, perde-se, também, o aprendizado advindo dela.”
Muito boa a reflexão, 😉

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Thaís Malheiros - 26, março 2013 às (02:36)

Acabei o livro agora. Comecei a sentir uma tristeza profunda, perceber que uma pessoa pode amar a ponto de se sacrificar pela outra me da um aperto no peito…

Adorei sua reflexão, adorei o livro, to chorando desde que o terminei, tão triste pela possível morte do Alex (quero acreditar que ele não morreu e que no final eles irão se encontrar).

Estou esperando agora chegar nas lojas no dia 29/03 o Pandemônio que é a continuação.

Obrigada pela dica!
Beijos!

Thaís

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Camila Costa - 29, março 2013 às (21:26)

Oi Flor!!
Quando li o livro, pensei em todas as páginas que um mundo sem amor era absurdo, que viver sofrendo era melhor do que aquela frieza, aquele vazio.
Mas agora, com um tempo depois eu até entendo a descrição de pessoas desesperadas por uma cura, qualquer coisas que aliviasse aquele sofrimento. O problema é que a “cura” acaba com qualquer amor, qualquer aspecto dele. Tudo isso se mistura na minha cabeça, e a unica conclusão que me vem é que Lauren Oliver merece um prêmio pela ideia, sem sombra de dúvidas.
Beijããão ♥

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Jessica Lisboa - 31, março 2013 às (13:42)

Adorei o texto, ainda nao tive a oportunidade de ler o livro, mas me parece que ele deve ser muito bom pra tirar uma reflexao.

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Thaynan Lira Galhardo - 03, julho 2013 às (12:46)

Perfeito!! Final espetacular!! “Sou uma romântica incorrigível que espera jamais ser corrigida, se isso significar que sejam tirados de mim os meus sonhos, a minha esperança, o meu amor. Emprego o amor naquilo que faço, naquilo que vejo e naquilo que sinto. Se fosse tirado de mim o amor, tirariam também uma parte de quem sou, e perder a mim mesma seria, talvez, o pior que poderia me acontecer.” — Colei no meu mural do Skoob. Espero que não se importe. :p

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