[Livros na Telona] O Amante de Lady Chatterley - D.H. Lawrence | Minha Vida Literária
20

mar
2013

[Livros na Telona] O Amante de Lady Chatterley – D.H. Lawrence

Livros Na Telona é uma coluna na qual analiso filmes que foram baseados em livros!

Sobre o Livro

Título: O Amante de Lady Chatterley
Autor: D.H. Lawrence
Editora: Martin Claret
Número de Páginas: 312
Ano de Publicação: 2006
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O Amante de Lady Chatterley foi censurado, quando publicado pela primeira vez em 1928, sofrendo alterações significativas que renderam três diferentes versões da obra até ser novamente publicado em sua versão original. Através de uma linguagem direta e carregada de sentimentos, conhecemos a história de Constance, tornada Lady Chatterley desde seu casamento com Clifford, que ficou paralítico durante a Primeira Guerra Mundial.
Constance veio de uma criação diferente para sua época: filha de pais socialistas e artistas, cresceu tendo consciência de sua liberdade de escolhas e tendo contato desde cedo, para os padrões da época – ainda mais se levarmos em conta que era pregado o dever de as mulheres casarem virgens -, com as relações sexuais. Esse foi, sem dúvida, o primeiro ponto que me fez entender o porquê de obra ter sido revolucionária e causadora de polêmicas em sua época. Clifford, por sua vez, nunca deu importância ao ato sexual em si e sua condição de paralítico acaba contribuindo para eliminá-lo por completo de sua vida.
Há, também, a própria mudança do estilo de vida de Constance, antes urbano e agora rural, na tranquila propriedade de Clifford. A partir daí, temos o decaimento do casamento deles e o posterior início de uma relação extraconjugal de Constance. Do adultério nascido do ato sexual, surge uma ligação mais profunda entre os amantes, que será a base para o restante da história.
“E continuou Constance na languidez de sua vida. Nada mais lhe restava senão o mecanismo vazio que Clifford chamava ‘a vida completa’ – essa longa existência em comum de dois seres que adquirem o hábito de viver juntos na mesma casa.
Vácuo! Aceitar o grande vazio da existência parecia-lhe o único fito da vida, com todas as pequenas ocupações compondo o grande total: nada…”

página 66
Não apenas por contar com uma temática polêmica, o livro se faz revolucionário por também conter explícitas cenas sexuais e uma crítica ferrenha aos costumes moralistas da sociedade.  São questionadas relações mantidas pelas aparências ao serem contrapostas àquelas com verdadeiros laços emocionais, porém ilícitas e/ou mal vistas por serem entre pessoas de diferentes classes sociais.
É importante ressaltar que, embora Constance estivesse insatisfeita com seu casamento por conta de sua nulidade sexual, ele só realmente se desfaz a partir do momento em que ela deixa de admirar seu marido e começa a repudiá-lo pela exposição de suas ideias. Enquanto ela tinha respeito pelos ideais de Clifford, ela ainda conseguia enxergar um companheiro em seu marido. Depois, não mais, e passa a desprezá-lo como homem.
O livro me impressionou do começo ao fim, não apenas pelo seu conteúdo revolucionário como – e principalmente – pela sensibilidade do autor em explorar os sentimentos de Constance, ao conseguir fazer o leitor enxergar a perda de sua importância como esposa nos cuidados de Clifford, após a introdução dos cuidados da enfermeira Sra. Bolton, e sua morte como mulher ao perder sua identidade sexual, reconquistando-a, depois, juntamente de um verdadeiro relacionamento, conseguindo aliar o prazer sexual ao amor pela primeira vez em sua vida. Não apenas isso, conseguimos compreender sua personalidade como um todo, o fato de sempre ter valorizado o sexo como uma maneira de proteger as próprias emoções e só conseguir alcançar seu êxtase ao se render a elas. Ela encontra seu clímax, não apenas sexual, no momento em que se vê livre das amarras impostas por ela, pela sociedade e por sua condição como um todo. Há, ainda, o fato de ser uma mulher ciente de suas necessidades sexuais em uma época onde não lhe era permitido ser assim, tendo tais necessidades muitas vezes ignoradas pelos homens que a enxergavam por sua posição social, como se a uma mulher de seu patamar não fosse necessário ou permitido encarar o sexo como prazer.
“Talvez fosse melhor assim. Porque a fêmea nela subsistente nunca fora tomada por nenhum homem. Os que a amaram, amaram-lhe a personalidade, não a fêmea – que cruelmente desprezaram ou ignoraram. Os homens cortejavam Constance ou Lady Chatterley, mas desdenhavam o seu sexo. Já Mellors desdenhava Lady Chatterley para lhe acariciar docemente os seios da fêmea.”
página 143
Ao fazer uma abordagem introspectiva de Constance, D.H. Lawrence deixa claro que ela nada mais é do que uma mulher em busca de sua própria felicidade, que por diversos momentos de sua vida precisou desvincular “sexo” de “amor” por acreditar não ser possível aliá-los. Pode haver um questionamento a ser feito sobre a importância dada ao caráter sexual na história, mas admirei o autor por sua coragem em defendê-lo como uma necessidade feminina, algo muitas vezes esquecido ou visto de maneira preconceituosa inclusive nos dias de hoje, sem deixar de mostrá-lo tanto desvinculado de sentimentos quanto vinculado ao amor. Mais do que revolucionária, O Amante de Lady Chatterley foi, para mim, uma obra de enorme sensibilidade.
Em épocas onde os romances eróticos estão em alta, a leitura O Amante de Lady Chatterley se faz extremamente interessante, por conseguir explorar muito bem o caráter sexual da história sem torná-la desprovida de outros conteúdos.
Minha recomendação aos interessados é que procurem uma edição atual para fazerem a leitura. A minha, por ser de 1972, conta com uma ortografia desatualizada e que foi deveras estranha aos meus olhos, além de ter me causado risos ao ler e imaginar a sonoridade de algumas palavras com acento circunflexo e que hoje não são mais acentuadas.
Sobre o Filme

O filme adaptado da obra de D.H. Lawrence lançado em 1981 tem como base os principais acontecimentos da história original; entretanto, em minha opinião, seu roteiro tomou um rumo próprio.

A começar que toda a história de Constance prévia ao seu casamento não é narrada e tal parte foi fundamental para que eu pudesse compreender a personagem durante a leitura.  Ainda, muitos outros momentos da trama foram excluídos do enredo, inclusive aqueles que dão vida ao guarda caça Mellors, dando-lhe uma história e uma personalidade críveis. No filme, sua história foi abordada de maneira demasiadamente superficial, e sua personalidade não se faz tão marcante quanto no livro.
Não apenas pelas omissões, o filme se faz diferente por incluir cenas que não se fazem presentes no livro. Isso acarretou em uma mudança na personalidade dos personagens. A relação entre Constance e Clifford é de co-dependência tanto no livro quanto no filme. Entretanto, em determinado momento do livro, há uma ruptura nessa relação, já que se torna insustentável para Constance continuar emocionalmente ligada a alguém que ela despreza. Clifford, por sua vez, tem um realce em sua frágil condição, tendo uma infantilização da sua retratação. No filme, o poder de sua condição social é ressaltada e a própria Constance se mostra mais submissa a ele.
Por fim, embora haja um paralelo entre os relacionamentos e as condições sociais das personagens, a forte crítica do livro foi amenizada no filme, adaptado de maneira a ressaltar muito mais o lado romântico, ainda que sensual, da história. Além disso, por mais que eu tenha apreciado Sylvia Kristel no papel principal, senti que a personagem Constance foi minimizada na adaptação e que parte da significação de seu relacionamento extraconjugal com Mellors foi perdida, sendo transformada no filme em somente uma paixão surgida durante um casamento que se tornou infeliz. Não estou aqui subestimando o amor de ambos, mas no livro a significação de tudo para Constance é muito maior do que foi abordado no filme.
Sinceramente, eu não gostei, muito menos o considerando como uma adaptação. A história foi retratada de forma muito superficial e, em minha visão, não se fez fiel por isso. Mesmo como filme apenas, livre de comparações com a obra original, não teria acrescentado muito para mim. Não foi algo que me emocionou ou me tocou de alguma outra maneira, diferentemente do livro, que acarretou em diversas reflexões e considerações.
Sendo assim, indico o livro muito mais do que indico o filme. Esse, acredito, pode ser visto como um complemento ao livro, mas jamais em caráter de conhecer a obra de D.H. Lawrence. Vale ressaltar que há cenas de nudez e de relações sexuais explícitas, o que torna o filme impróprio para todas as idades.
Observação: Há outra adaptação do livro para o cinema intitulada somente “Lady Chatterley”, feita em 2006. Apenas soube sobre ela após ter assistido a de 1981. De qualquer maneira, ela me pareceu mais promissora e mais fiel ao livro, tanto pelos poucos comentários que li sobre ela em alguns sites, quanto pela própria nota dos dois filmes no IMDB (6,9 para o filme de 2006 e 4,8 para o de 1981).
Confira o trailer do filme!

Esse livro foi lido para o Desafio Realmente Desafiante de 2013 #7: Ler um livro que é citado em outro livro.
(O Amante de Lady Chatterley é citado em O Céu Está Em Todo Lugar, de Jandy Nelson, na página 101)




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17 Respostas para "[Livros na Telona] O Amante de Lady Chatterley – D.H. Lawrence"

Ana Paula Barreto - 20, março 2013 às (16:37)

Nunca ouvi falar de nenhum dos dois. Acho que leria o livro, realmente a personagem parece forte e o conteúdo revolucionário para a época. Mas o filme, não gostei pela descrição. Não curto quando o filme muda personalidade dos personagens, inventa muitas coisas e tira outras mais importantes. Porque não fazer outra história então? rs
bjs

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Lú Miranda - 20, março 2013 às (17:02)

Fico me imaginando numa época em que tudo era regido pelo padrão da alta sociedade, não que hoje ainda hoje seja diferente, talvez apenas cm menos intensidade. É ridículo, numa boa, essa coisa de que a sociedade diz e impõe como as pessoas devem se comportar!
Essa obra é mais que recomendada, eu li na escola tem bastante tempo e pretendo reler um dia.

Mi, saudade daqui. rs
Beijos *-*
Clicando Livros

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cristiane - 20, março 2013 às (17:10)

Gente, tem filme! Vi esse livro a poucos dias em um blog como indicação mas nem notei que tinha filme. Legal isso! Vou querer conferir agora.

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Maura C. Parvatis - 20, março 2013 às (17:11)

Oi, Aione!
Gostei muito da postagem! =D Foi muito bom saber mais de um livro que sempre ouço algum comentário, mas que conhecia bem superficialmente.
Em breve, precisamente semestre que vem, vou lê-lo porque ele será um dos livros na disciplina de literatura inglesa. Espero gostar 😉

Beigos,
Maura – Blog da /mauraparvatis.

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Fabi Liberati - 20, março 2013 às (18:32)

Oie Mi, adorei o post, nunca ouvi falar de nem um dos dois, confesso que não sou muito chegada a filmes e livros de épocas, mas o trailer me deixou de fato um pouco ansiosa, quem sabe né?!
Beijos flor. =)

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Katrine Bernardo - 20, março 2013 às (22:36)

Oi Mione *-*
Não conhecia esse filme nem o livro, mas, foi o mesmo livro que você mostrou no vídeo publicado recentemente não foi? – o que tinha uma lista de livros que tinha que procurar na estante hihi
Adorei, vou ver se assisto um dia desses.
Um beijo.
http://livrodagarota.blogspot.com.br/

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Laura Zardo - 20, março 2013 às (22:43)

Não tenho lido muitos livros antigos ultimamente, mas me interessei por este livro, por ter sido uma polêmica na época e por ter um caráter sexual sendo diferente dos livros atuais.
Quase sempre as adaptações de livros para filmes não dão certo, deixam a desejar e pelo visto com esta não foi diferente, uma pena.

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Julia G - 21, março 2013 às (01:01)

Oi Mi, eu não conhecia esse livro, vi pela primeira vez na tag que foi feita no último post. Pelo visto, o livro não foi revolucionário apenas na sua época, tenho impressão de que ele continua mais libertário que nosso próprio tempo. O filme também não deve ter sido tão fiel por ter sido lançado em uma época em que, ainda, não havia tanta liberdade. Se for assistir, buscarei a versão de 2006.

Beijos

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Luiza - 21, março 2013 às (04:56)

Nossa, acredita que eu ainda não conhecia o livro ou o filme, ótima postagem 😉
Bjs
http://eternamente-princesa.blogspot.com.br/

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Pah - 21, março 2013 às (11:59)

Oi gêmea, tudo bem? Eu já havia visto esse livro antes, e sempre fico curiosa a respeito dele, e nem preciso falar o quanto sua resenha me deixou ainda mais curiosa. O fato é que adoro livros que além de descreverem as minucias da época, criticam suas convenções sociais, só o fato de você mencionar tal elemento crítico aumentou e MUITO minha vontade de ler o livro. Quanto ao filme, bem acho que sempre existe uma suavização da danada crítica social, mesmo em ótimas adaptações como a de Orgulho e Preconceito, por exemplo, o foto fica mais no romance do que na própria crítica, acredito que esse seja um fator do roteiro, e também do próprio caráter da adaptação, é difícil demais passar esses detalhes da narrativa para um conjunto de imagens né?!

Parabéns pelo post, Beijão gêmea linda

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Lili - 22, março 2013 às (18:54)

Foi excelente essa postagem! E fiquei maravilhada com as tuas palavras que mostraram a sensibilidade da história.
Fico triste que o filme mais antigo não tenha conseguido capitar isso, talvez pela própria interpretação do diretor da obra. Eu sempre vi comentários que exaltavam menos a obra do que tua fizeste.

Preciso tirar a prova.

liliescreve.blogspot.com

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Manu Hitz - 22, março 2013 às (21:45)

Que maravilhosa resenha! Conseguiu extrair o que o autor propôs ao escrever a obra revolucionária e mostra a sensibilidade em enxergar as necessidades da protagonista.
Um livro como esse precisa ser olhado com cuidado, considerando a época em que foi escrito e aproveitando ao máximo a crítica feita à sociedade da época.
Acho que um filme deveria ser fiel ao livro que o originou, em respeito às ideias do autor e para que seja compreendida a obra em sua essência.
Adorei! Em vez dos novos eróticos, muito melhor ler um clássico!

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Marli Carmen - 23, março 2013 às (23:52)

Oi, eu que adoro história de época vou colocar na minha lista de leitura. Não sabia que a Martin Claret tinha publicado.
Beijocas

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Amanda.. - 24, março 2013 às (14:56)

Já conhecia o livro apesar de ainda não ter lido agora não sabia que tinha o filme..
não me chamou muita atenção, mas é porque eu realmente não gosto muito de livros que se passam assim haa um tempão atras eu leio, mas é sempre aquela leitura lenta..

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Gladys Sena - 24, março 2013 às (22:23)

Geralmente as adaptações cinematográficas deixam a a desejar…
Não li o livro e nem vi nenhuma das adaptações.
É uma obra bem polêmica mesmo!

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Lucas Martins - 29, março 2013 às (20:15)

Sou louco por esse livro, Mi! Há tempos que quero lê-lo, justamente por ser um livro que causou muita polêmica, quando foi lançado. Quando lê-lo, vou comprar a edição da Martin Claret, que é tão bonita, hahahaha adoro a capa!
Quando for assistir ao filme, depois de ler o livro, claro, vou procurar essa edição de 2006. Prefiro quando o livro é realmente adaptado e não simplesmente inspirado.
Beijão!

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Jessica Lisboa - 31, março 2013 às (13:37)

OMG que esse post caiu do céu pra mim, eu tenho que ler esse livro (detalhe que ja tinha esquecido o nome do livro) pra prova que vou tem em Abril no colegio. *0* Adorei, nao sabia que tinha filme nao, muiito bom!

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