Delírios Sobre Enxergar o Mundo Sob a Ótica de Diversas Narrativas | Minha Vida Literária
13

maio
2013

Delírios Sobre Enxergar o Mundo Sob a Ótica de Diversas Narrativas

Após a leitura de Delírio, de Lauren Oliver, fiz um post com minhas reflexões e o chamei de Delírios Após “Delírio”. Tive uma boa resposta dos leitores e, alguns, me pediram para “delirar” mais vezes.
Dessa vez, delirei sobre o impacto das narrativas em um livro e a maneira de como costumo encarar situações, como se eu alternasse a narrativa de minha vida entre a primeira e a terceira pessoa.
Uma das coisas que aprendi em minha experiência como leitora é o impacto que a estrutura de uma narrativa pode ter em uma história. Não apenas no sentido de ser mais ou menos envolvente, a forma de como é contada pode alterar por completo sua veracidade.

A principal diferença entre se narrar em primeira ou terceira pessoa está na parcialidade. Sem nos atentarmos a isso, podemos facilmente acusar Capitu de adultério ou Lolita de ter seduzido Humbert Humbert aos doze anos, quando, na verdade, não temos provas sobre o primeiro fato e o segundo se tratar de um caso de pedofilia. Por outro lado, apesar de parcial e, às vezes, limitada, a primeira pessoa permite a maravilha de se adentrar por completo na mente do narrador, conhecendo diretamente suas emoções e pensamentos, enxergando as situações através de seus olhos. É a experiência de se estar na pele do outro.

Saindo do mundo literário, a maneira de como optamos por enxergar as situações também não as modificam por completo? Quantas vezes conduzi minha história focada apenas em minha própria visão de primeira pessoa, vendo o mundo somente por meu ponto de vista? Quantas vezes me enganei por enxergar algo conforme o que desejei ver, perdida em minhas próprias emoções, ou, então, agi corretamente por ter ouvido meu coração? Por outro lado, quantas vezes consegui ver a situação de outra pessoa com mais clareza, com um olhar de terceira pessoa, exatamente por não estar envolvida emocionalmente em seus problemas, ao mesmo tempo em que, também com esse olhar, deixei de compreender o outro por não vivenciar sua situação?
Quando se trata de escrever minha própria história, mudo meu tipo de narrativa segundo minhas necessidades; ora enxergo por minhas emoções, ora preciso colocá-las de lado, e basta escolher o tipo errado para que a interpretação de um momento seja completamente errônea. E, talvez, a graça esteja em ter a possibilidade da escolha, em aprender como enxergar sendo o “eu” e o “ele” ao mesmo tempo.
Afinal, se a limitação de algo está exatamente em olhá-lo somente por um ângulo, que experimentemos, então, enxergar o mundo sob a ótica de diferentes narrativas.




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17 Respostas para "Delírios Sobre Enxergar o Mundo Sob a Ótica de Diversas Narrativas"

Ana Paula Barreto - 13, maio 2013 às (22:22)

Caramba, este foi um dos melhores textos que li ultimamente. Você tem razão, a forma como vemos as coisas pode mudar tudo. Aliás, uma das minhas frases favoritas, do C.S. Lewis, é a seguinte: “Pois o que você ouve e vê depende do lugar em que se coloca, como depende também de quem você é.”
Perfeito o seu texto e seu ponto de vista. Compartilho dele com você.
bjs

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Katrine Bernardo - 13, maio 2013 às (23:12)

Bah Aione, adorei teu post! Acho incrível a maneira como você consegue falar sobre várias coisas – dentro dos temas literários – aqui no blog, a criatividade da Miooone *-*
Um beijo.
http://livrodagarota.blogspot.com.br/

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Fabi Liberati - 13, maio 2013 às (23:51)

Oi Mi, seu post foi realmente muito bom, concordo com você em tudo. E as vezes agente tem mesmo que nos colocar na pele de outra pessoa. Confesso que nem sempre mais a maioria das vezes tento fazer isso, e pensar: – Caramba e se fosse eu? E se fosse comigo?
O bom das narrativas em 1° pessoa é que nos da essa possibilidade, de sentir o que o personagem está sentido, e as vezes até enxergarmos nós mesmo, ao invés do personagem, tem muitos autores com essas habilidades =D.
Já a narrativa em 3° pessoa não nos da isso. Agente tem uma visão de fora, agente não consegue entender o que realmente aquele personagem tá sentindo. Nós não temos acesso aos diálogos com o próprio personagem.
Enfim, narrativa em 3° pessoa pra mim, nem sempre funciona. As vezes é importante se colocar no lugar de outra pessoa =P
Beijos Flor.

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Lygia Netto - 14, maio 2013 às (00:37)

Ótima reflexão. Por isso que admiro muito os autores que conseguem construir ótimos personagens, e com narrativa em terceira pessoa. E mesmo assim, conseguimos nos apegar a ele, pois é “normal” sermos parciais com os personagens, principalmente com protagonistas, quando se é em primeira pessoa. “Compramos” a luta deles mt mais fácil! Mas sem dúvidas, a narrativa em primeira pessoa é mais envolvente pra mim, por isso considero um verdadeiro desafio para os autores! rs.

Beijos!

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pah - 14, maio 2013 às (00:53)

Parabéns pelo texto, com poucos paragrafos você conseguiu refletir brilhantemente sobre como as coisas podem “mudar” quando vistas sobre diferentes pontos de vista.

bjo

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Naty - 14, maio 2013 às (01:30)

Adorei o texto. Confesso que as vezes fico presa na minha visão das coisas, mas estou mudando isso.
Sobre livros, apesar de acabar sendo imparcial eu prefiro narrativas em primeira pessoas, acho que acabo me envolvendo mais com a leitura.

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Mari ♥ - 14, maio 2013 às (01:39)

Oi Mi,
Não lembro de ler a outra postagem dessa coluna, mas gostei dessa, estou bem curiosa pra ler Delírio.
Seu texto ficou perfeito, realmente devemos parar pra analisar as coisas de pontos de vistas diferentes.
Parabéns pelo texto e desculpa meu sumiço.
Beijos

Mari – Stories And Advice

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Aline T.K.M. - 14, maio 2013 às (01:58)

Gostei muito do assunto do delírio hehehe. É verdade que essa questão das narrativas se aplica a várias questões e situações da vida, mesmo nos assuntos mais banais. Acredito que, seja no mundo real ou no literário, é preciso saber lidar com todo tipo de narrativa. Só assim é possível ficar bem consigo mesmo e com o outro, e evitar atitudes negativas (como o egocentrismo e a ignorância, por exemplo).

Bjinhos, Livro Lab

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Julia G - 14, maio 2013 às (12:56)

Mi, não tem como não gostar desses seus delírios. Sério, porque a gente sempre pensa em algo assim, mas não é todo mundo que consegue colocar isso em palavras. E realmente, porque não tentar ver o mundo por diferentes óticas? Ver um pouco o lado dos outros também, é o certo.É tão mais fácil exercitar isso quando estamos lendo um livro, é verdade, mas nada nos impede de tentar se desapegar daqueles sentimentos que nos deixam cegos para algumas verdades, não é mesmo?

Beijos

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MsBrown - 14, maio 2013 às (16:48)

Adorei o post, muito bem escrito, Aione!

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Alexandre Koenig de Freitas - 14, maio 2013 às (20:14)

Que profundo Mi,
Não conhecia este teu lado mais filosófico hehehe
Mas vc disse tudo: pq não experimentar olhar o mundo através de diferentes óticas?
Abraço,
Alê

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Lili - 15, maio 2013 às (13:00)

Eu me pego refletindo sobre as narrativas durante a leitura. Gosto principalmente quando um livro em terceira pessoa consegue ser moldado pelas características do protagonista. Não são todos os autores que o fazem com primor.

Sobre a vida, realmente isso é complexo. Nunca refleti sobre isso, sobre encarar a minha própria vida de pontos distintos de narrativa.
Eu procuro ver situações amplas, mas infelizmente acho que sou 100% primeira pessoa. Se eu imaginar a minha vida em um livro, só consigo imaginá-la contada em primeira pessoa.

Saudades,
liliescreve.blogspot.com

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Amanda - 15, maio 2013 às (16:33)

Este comentário foi removido pelo autor.

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Amanda - 15, maio 2013 às (16:34)

Concordo. Quando vemos tudo por um só ângulo, fica difícil entender, por exemplo, onde estamos errando. Gosto de escrever em primeira pessoa, mas em terceira me possibilita a visão geral de toda a história se precisar ser propriamente um personagem.

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Pah - 16, maio 2013 às (16:41)

Oi gêmea, adorei o texto!

Eu já pensei sobre isso algumas vezes… Eu sou do tipo que gosta de seguir a história pelo olhar do personagem principal, eu gosto de experimentar suas emoções (e acho que esse é ponto, o sentimental do personagem é que me toca) e suas divagações internas, mas sempre me pergunto sobre o outro lado da trama, sobre como as coisas parecem ser no paralelo de outros personagens, e gosto quando temos isso, ppq. conhecemos duas versões de uma mesma história, e aprendemos ainda mais com o olhar único de cada narrador. Por exemplo, os livros narrados pela mocinha que ganham uma versão narrada pelo mocinho; isso me encanta! Porque a gente tem um pouco dos dois mundos sem sair da narrativa em primeira pessoa que eu gosto tanto, rsrs

Bjs

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Ana Luiza Moraes - 16, maio 2013 às (23:52)

Adoreeeei o seu texto! Eu adoro ler livros com primeira pessoa, eu me sinto na pele da personagem, me envolvo com ela e sei lá, me conecto com o livro. Mas fico angustiada de não saber da parte dos outros personagens, afinal, não temos acesso a seus pensamentos.
Acho que é bom entrarmos no ponto de visto de outras pessoas e personagens. Muitas vezes aquela personagem irritante teve um motivo para ser assim e pode até ser que a gente agiria da mesma forma, não é?
Adorei seu texto, você escreve muito bem. Quem dera se eu conseguisse filosofar desta forma! :p
Beijoos!

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Ceile - 18, maio 2013 às (05:38)

Nos livros, tenho um envolvimento melhor com os narrados em primeira pessoa, mesmo que isso me limite, pois me sinto mais íntima.
Na vida, li uma vez que a única pessoa que sabe os dois lados da discussão é o cara do apartamento do lado – então mesmo que a gente escolha o que mais convém, sempre será a nossa visão (o que, de qualquer forma, vai limitar).
Eu procuro sempre me afastar do problema e tentar enxergar o todo – ver como a outra pessoa veria. É um bom exercício, mas sempre seremos nós a analisarmos.

Beijos (e adorei a ideia de trazer textos seus).

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