[Resenha] Dias Perfeitos - Raphael Montes | Minha Vida Literária
15

abr
2014

[Resenha] Dias Perfeitos – Raphael Montes

Título: Dias Perfeitos
Autor: Raphael Montes
Editora: Companhia das Letras
Número de Páginas: 278
Ano de Publicação: 2014
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Téo é um solitário estudante de medicina que divide seu tempo entre cuidar da mãe paraplégica e examinar cadáveres nas aulas de anatomia. Durante uma festa, ele conhece Clarice, uma jovem de espírito livre que sonha tornar-se roteirista de cinema. Ela está escrevendo um road movie sobre três amigas que viajam em busca de novas experiências. Obcecado por Clarice, Téo quer dissecar a rebeldia daquela menina. Começa, então, uma aproximação doentia que o leva a tomar uma atitude extrema. Passando por cenários oníricos, que incluem um chalé em Teresópolis e uma praia deserta em Ilha Grande, o casal estabelece uma rotina insólita, repleta de tortura psicológica e sordidez. O efeito é perturbador. Téo fala com calma, planeja os atos com frieza e justifica suas atitudes com uma lógica impecável. A capacidade do autor de explorar uma psique doentia é impressionante – e o mergulho psicológico não impede que o livro siga um ritmo eletrizante, repleto de surpresas, digno dos melhores thrillers da atualidade. Dias perfeitos é uma história de amor, sequestro e obsessão. Capaz de manter os personagens em tensão permanente e pródigo em diálogos afiados, Raphael Montes reafirma sua vocação para o suspense e se consolida como um grande talento da nova literatura nacional.
Certos livros são notáveis por nos proporcionarem deliciosas horas de leitura que culminam em um êxtase final, quase sempre representado por um sorriso nos lábios ou, até mesmo, em lágrimas de emoção. Outros, embora sejam capazes de ser tão envolventes quanto esses primeiros, destacam-se não por serem prazerosos, mas exatamente por nos tirarem de nossa zona de conforto. Dias Perfeitos, sem dúvida alguma, se enquadra na segunda categoria.
A escrita em terceira pessoa de Raphael Montes é admirável tanto por revelar tão intimamente os pensamentos e sentimentos de Téo, protagonista da trama, quanto por sua própria estrutura e fluidez. O autor não dispensa figuras de linguagem e outros atributos que enriquecem a narrativa, ao mesmo tempo em que não utiliza um linguajar complexo, que poderia reduzir o ritmo da leitura.

 

Ele continuava elétrico. O contato com a pele dela fora algo indescritível. Levantou-se e caminhou nervosamente pelo quarto. Ela falava alguma coisa, mas ele evitava escutar. Ela movia os braços, arregaçava as pernas, mas ele evitava olhar. A imagem era convidativa. Ao mesmo tempo, perigosa. Ele precisava respirar, precisava pensar, precisava… Saiu do quarto depressa, deixando para trás Clarice no Motel das Maravilhas.
página 139

 

Téo foi o que mais me impressionou em todo o livro. Observar seus pensamentos tanto me intrigava quanto angustiava por sua lógica completamente inversa. O protagonista é devoto da máxima “Os fins justificam os meios” e por diversas vezes me assombrou por ter uma visão tão distorcida dos fatos. Clarice, seu objeto de doentia paixão, transforma-se sob seu olhar de acordo com suas atitudes estarem ou não de acordo com suas vontades: se ela age como ele espera, tem suas qualidades enaltecidas; por outro lado, quando vai contra as crenças e atitudes de seu raptor, algo que poderia gerar questionamentos por parte do próprio Téo sobre seus atos, é vista como doida. Não apenas isso, Téo manipula sua própria visão de todo e qualquer acontecimento envolvendo Clarice e ele para que esteja de acordo com o que quer acreditar, chegando, até mesmo, a se convencer de absurdos apenas para ter sua consciência tranquilizada. Afinal, todas as suas ações são para o bem de sua amada, que em muito evoluiu desde que se conheceram.

 

Téo nunca deixava Clarice ler jornal ou ver televisão. Havia retirado as pilhas do controle remoto, pois achava melhor que ela não acompanhasse o que acontecia lá fora: o completo isolamento ajudaria a terminar o roteiro. Além disso, era importante que ela descolasse um pouco da realidade para que pudesse pensar nele. Sem a distração das novelas ou as barbáries do jornal, ela teria tempo de considerar melhor o relacionamento que construíam.

página 90

 

Observar as loucuras claramente presentes em Téo me angustiou, mas foi principalmente o final da obra que mais me perturbou. Enquanto eu ansiava por um desfecho, o autor finalizou a trama fazendo jus ao gênero de thrillers psicológicos indo em uma direção completamente oposta ao que eu esperava e, assim, dando o toque perfeito ao enredo – por mais inquietante que tenha sido.
Dias Perfeitos não é uma leitura leve ou relaxante, apesar de ser tão fluida e envolvente. É fácil se perder por entre suas páginas e ainda mais fácil sair delas com uma evidente sensação de incômodo. Raphael Montes tem claro domínio sobre sua escrita e sabe como impactar o leitor. Esteja preparado para conhecer a doentia mente de Téo e para não se esquecer dela tão facilmente.




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Uma resposta para "[Resenha] Dias Perfeitos – Raphael Montes"

Natália Keli - 01, junho 2014 às (15:28)

Estou super curiosa para ler esse livro porque os comentários são super positivos, sem falar que thrillers psicológicos me agradam bastante, principalmente quando são bem desenvolvidos.
All My Life in Books – Aguardo sua visita!

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