[Resenha] A Balada de Adam Henry - Ian McEwan | Minha Vida Literária
30

dez
2014

[Resenha] A Balada de Adam Henry – Ian McEwan

A Balada de Adam Henry

Título: A Balada de Adam Henry
Autor: Ian McEwan
Editora: Companhia das Letras
Número de Páginas:  200
Ano de Publicação: 2014
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Poucos autores de língua inglesa são mais importantes na atualidade do que Ian McEwan. Em quarenta anos de carreira, ele compôs marcos da literatura contemporânea, como Amor sem fim (1997), Amsterdam (1998) e Reparação (2001).
Seus livros são conhecidos pela precisão da prosa, pela atmosfera de suspense e estranhamento e também pelas viradas surpreendentes da trama, que puxam o tapete do leitor ao final do livro.
Nos últimos anos, o traço decisivo de sua literatura tem sido a defesa da racionalidade científica contra os fundamentalismos religiosos. É esse o embate que está no cerne de “A balada de Adam Henry”.
A personagem central é Fiona Maye, uma juíza do Tribunal Superior especialista em Direito da Família. Ela é conhecida pela “imparcialidade divina e inteligência diabólica”, na definição de um colega de magistratura. Mas seu sucesso profissional esconde fracassos na vida privada. Prestes a completar sessenta anos, ela ainda se arrepende de não ter tido filhos e vê seu casamento desmoronar.
Assim que seu marido faz as malas e sai de casa, Fiona tem de lidar com o caso de um garoto de dezessete anos chamado Adam Henry. Ele sofre de leucemia e depende de uma transfusão de sangue para sobreviver. Seus familiares, contudo, são Testemunhas de Jeová e resistem ao procedimento.
O dilema não se resume à decisão judicial. Como nos demais casos que julga, Fiona argumenta com brilho em favor do racionalismo e repele os arroubos do fervor religioso. Mas Adam se insinua de modo inesperado na vida da juíza. Revela-se um garoto culto e sensível e lhe dedica um poema incisivo: “A balada de Adam Henry”.
Os sentimentos despertados pelo garoto a surpreendem e incomodam. A crise doméstica e o envolvimento emocional com Adam – que oscila entre a maternidade reprimida e o desejo sexual – desarrumam sua trajetória de vida exemplar, trilhada com disciplina espartana desde a infância.

Desde que assisti a Desejo e Reparação, anseio por ler Reparação, de Ian McEwan, obra que originou o filme. Embora ainda não tenha tido a oportunidade de fazer essa leitura, acabei me deparando com A Balada de Adam Henry, mais novo romance do autor, e não pensei duas vezes em solicitá-lo.

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Apesar de ter poucas páginas, o livro é extremamente denso em seu conteúdo. Com uma escrita direta e rápida, o autor consegue muito bem descrever cenários e situações, bem como revelar os mais íntimos anseios e pensamentos de suas personagens. No caso, em terceira pessoa, temos a visão de Fiona, juíza do Tribunal Superior que vive uma crise em seu casamento.

A primeira característica a me chamar completamente a atenção na obra foi a facilidade com que Ian McEwan transita por diferentes intervalos de tempo sem perder o foco, atrelando passado e presente, e, acima de tudo, a vida profissional de Fiona com sua vida pessoal. Não há uma distinção entre a juíza e a mulher – embora o sucesso da primeira seja contraposto ao fracasso vivido em seu relacionamento -, temos Fiona e todas as facetas de sua vida conectadas umas às outras, tornando possível estabelecer relações de causas e consequências nas situações por ela vividas.

 

“Ela tinha o poder de afastar uma criança de um pai insensível, e às vezes o fazia. Mas afastar a si mesma de um marido insensível? Quando se sentia frágil e solitária? Onde estava o juiz que iria protegê-la?

página 14

 

Depois, é completamente notável a maestria do autor em debater assuntos polêmicos, fazendo um paralelo entre as convicções religiosas e o racionalismo. Com argumentações formidáveis de ambos os lados, traz a questão do jovem Adam Henry, acometido por leucemia e que se recusa a aceitar uma transfusão sanguínea por essa ser contrária as suas crenças e as de sua família. Assim, acompanhamos, durante parte da história, o debate no tribunal até o veredito de Fiona, capaz de gerar acontecimentos na história além do esperado.

Terminei a leitura fascinada pela escrita do autor e por sua capacidade de debater questões morais, de demonstrar diferentes opiniões e valores, de expor sentimentos conflituosos e, sobretudo, de humanizar suas personagens. Se antes eu já ansiava por conhecer outras obras do autor, após A Balada de Adam Henry, fazê-lo se tornou praticamente um dever a ser cumprido.

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4 Respostas para "[Resenha] A Balada de Adam Henry – Ian McEwan"

Edilza - 30, dezembro 2014 às (12:53)

Com essa resenha fiquei bem curiosa pra conhecer algo do autor, que nunca tinha ouvido falar. É ótimo quando um tem o dom em tratar de assuntos polêmicos com maestria.
Amei a resenha! Bjs, Mi <3

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camila rosa - 30, dezembro 2014 às (15:44)

Olá, tudo bom?
Eu ainda não tinha ouvido falar desse livro, ele parece ser bacana, mas não pretendo ler ele por agora, quem sabe mais para frente.
Beijos *-*

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Paula de Franco - 30, dezembro 2014 às (16:00)

Olá,

Estava eu lendo a resenha achando o livro falaria de festas, mas me deparei com uma batalha entre a pessoa aceitar ou não essa transfusão sanguínea. Minha família tem pessoas de uma religião que também são contra e com isso eu fiquei bem interessada nessa leitura pra saber o que acontece no final. Deve ser um ótimo livro.

Beijos.

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Juliana Frygoudakis - 31, dezembro 2014 às (00:41)

Oi Mi!
Desde que eu vi que você avaliou esse livro como 5 estrelas no skoob estava esperando a resenha dele! Fiquei ansiosa para lê-lo, ainda mais porque fala sobre alguns assuntos polemicos!

Beijos!

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