[Livros Na Telona] Reparação - Ian McEwan | Minha Vida Literária
24

mar
2015

[Livros Na Telona] Reparação – Ian McEwan

Livros Na Telona é uma coluna na qual analiso filmes que foram baseados em livros!

Desejo e Reparação

Sobre o Livro

Reparação
Título: Reparação
Autor: Ian McEwan
Editora: Companhia das Letras
Número de Páginas: 272
Ano de Publicação: 2011
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Desde que assisti a Desejo e Reparação e me apaixonei por ele, tenho curiosidade de ler sua obra de origem, Reparação, de Ian McEwan.

Como indica a sinopse, o livro traz a história que se inicia com Briony Tallis presenciando “uma cena que vai atormentar a sua imaginação: sua irmã mais velha, sob o olhar de um amigo de infância, tira a roupa e mergulha, apenas de calcinha e sutiã, na fonte do quintal da casa de campo. A partir desse episódio e de uma sucessão de equívocos, a menina, que nutre a ambição de ser escritora, constrói uma história fantasiosa” que a leva a cometer “um crime com efeitos devastadores na vida de toda a família.”

Reparação1

A narrativa se dá em 3ª pessoa, excetuando-se apenas o epílogo, narrado em 1ª pessoa. Na primeira parte da história, que se desenvolve em apenas um dia no ano de 1935, Briony, Cecília e Robbie são os personagens através de cujas visões analisamos os fatos. Já na segunda parte, a ótica da narrativa se concentra apenas em Robbie, enquanto a terceira e última parte traz a visão de Briony. Em ambas, o período no qual os fatos são narrados é o do início da 2ª Guerra Mundial.

 

“Parada no quarto, aguardando a volta dos primos, Briony deu-se conta de que poderia escrever uma cena como aquela ocorrida junto à fonte e que poderia incluir um observador oculto, como ela própria. Imaginava-se agora correndo para seu quarto, pegando um bloco de papel pautado e sua caneta-tinteiro de baquelita marmorizada. Já via as frases simples, os símbolos telepáticos se acumulando, fluindo da ponta da pena. Poderia escrever a cena três vezes, de três pontos de vista; sua excitação era proporcionada pela possibilidade de liberdade, de livrar-se daquela luta desgraciosa entre bons e maus, heróis e vilões. Nenhum desses três era mau, nenhum era particularmente bom. Ela não precisava julgar. Não precisava haver uma moral. Bastava que mostrasse mentes separadas, tão vivas quanto a dela, debatendo-se com a idéia de que as outras mentes eram igualmente vivas. Não eram só o mal e as tramóias que tornavam as pessoas infelizes; era a confusão, eram os mal-entendidos; acima de tudo, era a incapacidade de apreender a verdade simples de que as outras pessoas são tão reais quanto nós. E somente numa história seria possível incluir essas três mentes diferentes e mostrar como elas tinham o mesmo valor. Essa era a única moral que uma história precisava ter.”

página 37

 

Foi Briony quem me encantou, em um primeiro momento. Foi impossível não me sentir fascinada pela personagem, levando-se em consideração sua ambição em ser escritora e o funcionamento de sua mente. Briony preza pela ordem e sua mente apresenta a dicotomia do Bem e do Mal, a partir da qual constrói a moral de suas histórias. Assim, enquanto fala da peça de teatro escrita para agradar seu irmão, é possível observamos seu desejo em controlar e manipular situações de acordo com suas próprias crenças; em suas histórias, ela assume o papel soberano de colocar todas as pessoas e situações agindo conforme sua vontade. É a personalidade de Briony a principal definidora dos desenrolares da trama: não fosse sua maneira de enxergar e interpretar o mundo, a história não se desenvolveria como acontece.

É inegável a força da escrita de Ian McEwan e sua capacidade de envolver o leitor. Ainda que muitas de suas cenas sejam um tanto quanto descritivas, sua maneira única de fazê-las faz do livro, mais do que agradável, completamente prazeroso de ser lido. Ainda assim, a leitura exige um pouco do leitor, não se configurando como “rápida”.

 

“Agora que era tarde demais, a ideia lhe parecia óbvia: uma história era uma forma de telepatia. Por meio de símbolos traçados com tinta numa página, ela conseguia transmitir pensamentos e sentimentos da sua mente para a mente de seu leitor. Era um processo mágico, tão corriqueiro que ninguém parava para pensar e se admirar. Ler uma frase e entendê-la era a mesma coisa; era como dobrar o dedo, não havia intermediação. Não havia um hiato durante o qual os símbolos eram decifrados. A gente via a palavra castelo e pronto, lá estava ele, visto ao longe, com bosques verdejantes a se estender a sua frente, o ar azulado e embaçado pela fumaça que subia da forja do ferreiro, e uma estrada com calçamento de pedra a serpentear à sombra das árvores…”

página 35

 

É difícil expressar em palavras o encantamento que Reparação me causou a cada página. Embora eu já soubesse o final da trama, minha leitura não foi em nada prejudicada e, talvez, tenha assumido uma ótica diferente e positiva justamente pelo meu conhecimento dos fatos. Pude analisar cada parte, cada recurso do autor de forma que seria impossível em um primeiro contato com a história. Independentemente de se saber ou não os desenrolares, é fato o quanto tudo é fascinante e genialmente construído por McEwan. O autor consegue expressar as emoções e pensamentos de cada personagem de forma a atingirem o leitor, ao passo que incita reflexões por meio de suas visões e realidades vividas ao longo do enredo.

Ainda que a leitura envolva e conquiste a cada página virada, sua total compreensão, apreciação e genialidade só se consolidam ao final – no caso do leitor não ter tido contato com a história, por exemplo através do filme, como em meu caso. Conhecendo-se o final, a estrutura da obra assume outro significado e, dessa maneira, demonstra o quanto Ian McEwan foi magistral ao criar essa obra. Sem dúvida alguma, Reparação foi mais um livro a entrar para minha lista de favoritos.

Reparação2

Sobre o Filme

 

Desejo e Reparação me encantou desde as primeiras cenas. Logo no início, minha sensação era que cada passagem representava uma impressão e, portanto, cada momento não era apenas o que estava sendo captado pelos olhos, mas sim dotado de subjetividade e sensações.

Desejo e Reparação2

O filme é extremamente fiel à obra original, sobretudo na primeira parte. Apesar de eu tê-lo visto há muitos anos, minha mente se enchia com suas cenas a cada nova página, conforme eu realizava a leitura. Ainda que, nas outras duas partes, não tenhamos uma representação exata do que foi escrito pelo autor, ainda assim temos os mesmos universos e principais situações, de forma que a história no filme se desenvolve precisamente de acordo com o livro. Apenas o epílogo foi bastante modificado, contudo, traz a essência de seu conteúdo e não consigo pensar de que outra forma ele poderia ter sido adaptado.

Desejo e Reparação1

O filme, talvez, traga uma maior carga de romantismo, uma vez que enfatiza mais Cecilia e Robbie, enquanto o livro dá uma maior visão sobre Briony. É como se a adaptação trouxesse, acima de tudo, uma história de amor, enquanto o livro fala também sobre o romance, mas principalmente sobre culpa e a sucessão de eventos decorridos do crime de Briony. Não é a toa que a tradução do filme para o português brasileiro recebeu o acréscimo, em seu título, de “Desejo” ao original “Reparação”.

Desejo e Reparação3

Cheguei a cogitar se minhas impressões sobre o filme não se deram dessa forma apenas por eu tê-lo assistido antes da leitura e, assim, já ter construído uma imagem positiva sobre ele. Entretanto, quanto mais eu pensava nisso, mais eu me sentia confiante em rejeitar esse pensamento. O filme traduz muito bem toda a essência da obra de McEwan e foi uma excelente adaptação. O livro, é claro, é muito mais completo e profundo, mas principalmente por essa mídia ser mais propícia a isso, e não pelo filme ter deixado a desejar ao representá-lo.

 

Assista ao Trailer!

 





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10 Respostas para "[Livros Na Telona] Reparação – Ian McEwan"

Lise - 24, março 2015 às (09:30)

Mi… Fiquei tão feliz que você finalmente pode ler. Esse é um daqueles livros que você quer dividi com o mundo de tão fantástico.

Acho uma obra-prima, em especial pelo modo como o autor usa as palavras. E acho que o diretor conseguiu fazer o mesmo com o filme, brincar com as imagens. evar os pontos de vista, as insinuações. Nos fazer divagar pelas possibilidades.

Eu não sei se tenho a mesma impressão de que um se centra em Briony e o outro no casal. Acho que ambos tratam do mesmo. Afinal o livro é sobre o romance, mas é sobre a própria história do romance (que envolve a autora), então eu acho que eles me passaram a mesma impressão.

Beijos cheios de saudades!

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Leticia - 24, março 2015 às (10:10)

Oi Aoine…
Adorei a história. Eu ainda nem tinha ouvido falar neste livro acredita?
Eu acho que sua impressão positivas pode ter sido por isso, porque depois que lemos o livro, ficamos colocando algumas criticas mentalmente para o filme…rsrs Acho que todo leitor é assim.

livrosvamosdevoralos.blogspot.com.br

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Juliana - 25, março 2015 às (11:03)

Olá Aione. Ao ler sua resenha fiquei com vontade de ler Reparação, como você até um tempo atrás; eu só apenas tinha visto o filme. Este então, me deixou arrebatada. Todas as cenas e a realidade como algumas são tratadas é de um caráter muito interessante. Espero um dia ler Reparação e assim poder fazer a comparação entre as duas obras. Bjs!

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Danielle Thamires - 25, março 2015 às (11:33)

Eu só tina ouvido falar do filme até agora , e como não assisto o filme antes de ler o livro, e me interessei bastante por Reparação , vou colocar o livro na minha listinha e,claro, lê-lo antes de assistir…apesar da curiosidade que tenho pelo filme.

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emanoelle souza - 25, março 2015 às (16:32)

a principio o filme só tinha me interessado porque era com a atriz Keira knightley, depois de uns minutos de filme eu comecei a ficar empolgada com a historia e no final do filme me emocionei muito, depois descobrir que era baseado em um livro e nao perdi tempo comprei o livro e li e adorei, foi o primeiro livro do autor que eu li e nao me arrependi, a historia e envolvente e bem escrita, gostei muito!

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Cristiane Oliveira - 27, março 2015 às (11:47)

Oi Aione. Eu realmente achava que já tinha visto este filme. Mas depois de ver o trailer que você postou, tenho certeza que não rs. A história parece ser bem forte, e emocionante. Fiquei mais interessada em ver o filme, pra ser sincera, mas adoro quando filme e livro estão “à altura” um do outro.
Beijos

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Maria Alves - 28, março 2015 às (17:04)

Não conhecia o filme fiquei com vontade de assistir, já anotei o nome kk.
Gostei da resenha e achei a historia interessante, parece ser um romance fascinante e envolvente. Gostei de saber que a adaptação foi fiel ao livro, dificilmente isso acontece.

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Tudo que Motiva - 30, março 2015 às (00:47)

Ainda não li ao filme e nem assisti ao filme, mas com a resenha fiquei com muita vontade de conhecer um pouquinho mais. Já tinha visto ao trailer uma vez, mas não lembro de eu ter despertado algum interesse nele. Mas vou seguir sempre a ideia de ler o livro antes de assistir ao filme.

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Rudynalva - 30, março 2015 às (22:11)

Aione!
É emocionante ler um livro tão cheio de encantamento, amor e de certa forma rebeldia.
Acredita que não assisti o filme ainda? Como também não li o livro, prefiro lê-lo primeiro, para depois assistir o filme.
As adaptações sempre mudam algo para dar maior efeito cinematográfico.
cheirinhos
Rudy

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Érika - 07, abril 2015 às (08:10)

Olá. Adoro sua página, parabéns.
Assisti esse filme algum tempo atrás devido aos atores, não sabia que ele era adaptação.
Fiquei curiosa. Obrigada pela resenha, me deu ainda mais vontade.
😉

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