[Resenha] Bordados - Marjane Satrapi | Minha Vida Literária
02

set
2016

[Resenha] Bordados – Marjane Satrapi

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Título: Bordados
Autor: Marjane Satrapi
Editora: Quadrinhos na Cia
Número de Páginas: 136
Ano de Publicação: 2010
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Os almoços de família na casa da avó de Marjane Satrapi, em Teerã, terminavam sempre com o mesmo ritual – enquanto os homens iam fazer a sesta, as mulheres lavavam a louça. Logo depois começava uma sessão cujo acesso só era permitido a elas – o ‘bordado’. O ‘bordado’ iraniano seria equivalente ao brasileiríssimo ‘tricô’, não fosse uma acepção bastante particular – a expressão designa também a cirurgia de reconstituição do hímen, uma decisão pragmática para as mulheres que não abrem mão de ter vida sexual antes do casamento, mas sabem que precisam corresponder às expectativas das forças moralistas do país. O grupo que se reúne na casa da avó de Marjane é uma amostra de mulheres com moral e experiência bastante variadas, mas sempre às voltas com o machismo e a tradição. Casamentos malfadados, virgindades roubadas, adultérios, frustrações, golpes e autoenganos, mostram que no Irã amar e de-samar pode ser ainda mais complicado do que podemos supor.

A facilidade com que Marjane Satrapi narra o cotidiano iraniano com todas as suas nuances é formidável. Se em Persépolis temos um drama autobiográfico, em Bordados, mesmo que ainda haja esse caráter intimista, característico da escrita da autora, temos agora uma narrativa divertidíssima, do começo ao fim.

Aqui, reunidas em torno do samovar, o tradicional bule de chá iraniano Marjani, juntamente com outras mulheres, dentre elas sua avó e sua mãe, são protagonistas dessa pequena história repleta de particularidades e significados.

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Um bate-papo íntimo, informal, onde estão todas muito confortáveis para falarem o que tiverem vontade. A temática central do debate são os casamentos, romances e suas vidas sexuais, bem como de conhecidas suas. Se esses temas já possuem seus tabus universais, imaginem na realidade iraniana, que tem o peso de uma cultura conservadora e opressora, sobretudo para as mulheres?

O interessante dessa narrativa, além do humor ácido e da sinceridade exposta pelas mulheres, é observarmos as estratégias as quais elas utilizaram ao longo da vida para sair de situações inusitadas. Assim, notamos o tamanho das opressões e pressões sofridas pelas mulheres em tal contexto social, mesmo que isso nos seja transmitido de modo bem humorado por elas, ficam claras as amarras sociais em torno das mesmas. Mas é interessante acompanhar como elas conseguiram lidar com tudo isso e ainda ter histórias interessantes para contar.

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Esteticamente o livro é lindíssimo, o traço da autora é muito marcante, realista, limpo, acho incrível como aqui, ela consegue nos transmitir de modo tão singular a cultura iraniana e o rebatimento da mesma na vida das mulheres de modo leve.

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É importante destacar que o livro é curto e, a meu ver, esse é o ponto negativo dele. Quando acaba, fica o gosto de quero mais, o que só confirma o talento de Marjani, que sabe como ninguém prender nossa atenção através da profundidade de suas reflexões, da leveza de seus desenhos e da capacidade de nos fazer sorrir mesmo quando, no fundo, sabemos que a vida dessas mulheres não foram nada fáceis. Mas, ainda assim, a espontaneidade dos diálogos reforçam a capacidade da autora de envolver seus leitores e nos deixar ansiosos e com muitas expectativas pelas próximas leituras. Leitura mais do que recomendada, mas, preparem-se, pois as gargalhadas são garantidas.





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